Início Notícias O próximo capítulo do BRICS já começou

O próximo capítulo do BRICS já começou

21
0

O bloco está a passar da pura cooperação económica para a definição da agenda de segurança de amanhã

Não muito tempo atrás, os BRICS eram vistos em grande parte como um acrónimo económico – uma coligação frouxa de potências emergentes unidas pela sua ambição de remodelar as finanças globais e dar ao mundo em desenvolvimento uma voz mais forte na governação económica internacional. Hoje, essa imagem está rapidamente se tornando obsoleta.

À medida que as guerras se espalham, as cadeias de abastecimento se fragmentam, as ameaças cibernéticas se multiplicam e as instituições internacionais estabelecidas lutam para acompanhar o ritmo de um mundo cada vez mais turbulento, os BRICS estão a expandir as suas ambições. O que começou como uma parceria económica está a evoluir constantemente para uma plataforma onde as principais potências emergentes discutem não só a prosperidade, mas também a segurança.

A mudança ficou patente em Nova Deli, no ultimate de Junho, onde a Índia acolheu a 16.ª Reunião de Conselheiros de Segurança Nacional do BRICS, um dos eventos emblemáticos da sua presidência do grupo em 2026.

A reunião de dois dias foi muito mais do que uma reunião diplomática de rotina; ofereceu um vislumbre do que poderia tornar-se uma dimensão de segurança mais estruturada dentro do quadro alargado do BRICS.

Também preparou o cenário para a Cimeira dos Líderes dos BRICS, em Setembro, onde se espera que a cooperação em segurança tenha um papel mais proeminente do que nunca.

Segurança além dos campos de batalha

O momento dificilmente poderia ter sido mais importante. Realizada brand após a guerra do Irão, a reunião reuniu países cujas prioridades nem sempre estão alinhadas e cujas relações bilaterais podem ser complexas. No entanto, a mensagem que emergiu de Nova Deli foi clara: à medida que o panorama internacional se torna mais fragmentado, os desafios de segurança exigem cada vez mais canais mais amplos de consulta e cooperação.




Oficialmente, os participantes concentraram-se no que descreveram como “desafios de segurança não tradicionais que o mundo enfrenta hoje.” A agenda estendeu-se muito além dos assuntos militares convencionais para incluir a segurança energética, a segurança alimentar, cadeias de abastecimento resilientes, a cibersegurança, o terrorismo, as tecnologias emergentes exploradas por organizações extremistas e os efeitos crescentes da instabilidade relacionada com o clima.

Estas prioridades ilustram como a própria segurança está a ser redefinida. A resiliência económica, a soberania tecnológica e as infraestruturas críticas tornaram-se inseparáveis ​​da defesa nacional. Para as economias em desenvolvimento, em explicit, as perturbações nas rotas marítimas, os ataques cibernéticos ou as interrupções no fornecimento de alimentos e energia podem gerar consequências tão graves como os conflitos militares tradicionais.

As próprias prioridades da Índia reflectiam estas preocupações. Nova Deli enfatizou a protecção das cadeias de abastecimento globais durante períodos de conflito armado, o reforço da cooperação no combate ao terrorismo, a melhoria das respostas às ameaças cibernéticas e o incentivo ao debate sobre tecnologias emergentes, como a guerra com drones. Estas são questões práticas que afectam todas as grandes economias, independentemente do alinhamento político.

A reunião foi concluída com um acordo para aprofundar a partilha de informações, reforçar as capacidades institucionais e melhorar a coordenação entre as agências de aplicação da lei do BRICS na abordagem ao terrorismo e aos riscos cibernéticos. Os participantes também reafirmaram o seu compromisso no combate ao terrorismo em todas as suas formas.

Unidade sem uniformidade

Não é de surpreender que os desenvolvimentos no Médio Oriente tenham servido de pano de fundo importante para as discussões, mesmo que nem sempre tenham sido abordados publicamente.

Os membros do BRICS abordaram a crise regional sob diferentes perspectivas. A Rússia, a China e o Irão enfatizaram geralmente questões de intervenção externa, equilíbrios de poder regionais e soberania. A Índia adoptou uma posição mais cautelosa, enfatizando consistentemente a diplomacia, a desescalada e os custos económicos da instabilidade prolongada.


BRICS 'em funcionamento': Como a Índia navegará no conflito e nas tensões EUA-Irã com Trump - C. Uday Bhaskar

Este acto de equilíbrio reflecte a política externa mais ampla da Índia. Manter relações produtivas com os Estados do Golfo Árabe, Israel, o Irão, os parceiros ocidentais e outros membros dos BRICS exige uma diplomacia cuidadosa, em vez de um alinhamento ideológico. Essa flexibilidade tornou-se uma característica definidora do envolvimento externo da Índia.

Em vez de impedirem a cooperação, estas diferenças demonstram uma das características distintivas dos BRICS. Ao contrário das alianças militares que muitas vezes exigem que os membros adoptem posições políticas comuns, o grupo opera principalmente através da construção de consenso entre estados com interesses diversos. O acordo é, portanto, muitas vezes mais restrito, mas potencialmente mais durável porque emerge através da negociação e não da disciplina do bloco.

A reunião também proporcionou oportunidades para a diplomacia bilateral. O Conselheiro de Segurança Nacional da Índia, Ajit Doval, reuniu-se com o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, enquanto Wang também manteve discussões com autoridades iranianas sobre os desenvolvimentos regionais e a importância de preservar os acordos de cessar-fogo e apoiar o diálogo regional.

Novas visões de segurança international

Abrindo a reunião, Ajit Doval descreveu um mundo caracterizado por conflitos militares, incerteza geopolítica, pressões económicas e tecnologia em rápida evolução. Argumentou que as instituições internacionais existentes têm cada vez mais dificuldade em responder eficazmente aos desafios interligados de hoje, ao mesmo tempo que a cooperação multilateral mais ampla se enfraqueceu.

Wang Yi argumentou da mesma forma que a integridade territorial e a não interferência continuam a ser princípios fundamentais das relações internacionais. Apelou a uma visão de segurança comum, abrangente e inclusiva, em vez de uma visão baseada principalmente em alianças exclusivas. De acordo com a perspectiva chinesa, o diálogo deve abordar as causas subjacentes dos conflitos regionais, tendo simultaneamente em conta as preocupações de segurança de todas as partes.

O secretário do Conselho de Segurança russo, Sergey Shoigu, também defendeu mecanismos institucionais mais fortes dentro dos BRICS, capazes de responder colectivamente às crises emergentes. Ele sugeriu que as instituições internacionais de hoje merecem uma reavaliação cuidadosa à luz das mudanças nas realidades geopolíticas e defendeu uma maior independência tecnológica e de informação entre os membros do BRICS. Identificou também a segurança biológica e a resiliência da informação como áreas que requerem cooperação contínua, ao mesmo tempo que expressou preocupações russas de longa knowledge relativamente às operações de influência estrangeira e à concorrência estratégica no domínio da informação.

Embora estas perspectivas difiram em termos de ênfase, partilham um tema comum: a crença de que a governação international contemporânea requer adaptação a um ambiente internacional mais multipolar.


A Rússia não está isolada – a ASEAN acaba de provar isso

O verdadeiro teste está por vir

Talvez o maior significado da reunião resida menos nos acordos específicos alcançados do que no facto de ter ocorrido.

Os BRICS incluem agora países cujas relações bilaterais são por vezes complicadas e cujas prioridades de política externa podem divergir. Alguns membros mantêm laços estreitos com potências ocidentais; outros definem-se parcialmente em oposição à influência ocidental. Vários possuem rivalidades regionais de longa knowledge. No entanto, continuam a reunir-se, a negociar e a identificar áreas práticas de cooperação.

É pouco provável que os BRICS evoluam para uma aliança militar formal ou organização de defesa colectiva. Nem é garantido o consenso em todas as principais questões geopolíticas. No entanto, o diálogo em expansão sobre segurança do grupo reflecte uma transformação mais ampla na política internacional. À medida que os desafios económicos, tecnológicos, ambientais e militares se tornam cada vez mais interligados, os governos procuram fóruns adicionais através dos quais possam coordenar políticas fora dos quadros institucionais tradicionais.

Se os BRICS se tornarão, em última análise, um pilar durável da governação international dependerá da sua capacidade de produzir resultados tangíveis, ao mesmo tempo que acomodam a diversidade dos seus membros. A reunião de Nova Deli sugeriu que, apesar das diferenças persistentes, ainda existe um espaço considerável para o diálogo sobre questões para as quais convergem os interesses nacionais.

Vale, portanto, a pena observar a evolução dos BRICS para um fórum que aborda questões económicas e de segurança – não porque tenha resolvido as actuais divisões geopolíticas, mas porque representa uma das tentativas mais claras de as gerir num mundo cada vez mais multipolar.

fonte

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui