Estudante narra como o governo está acabando com a pesquisa científica no país

Confira o relato de Gabriel Rebello

Oi pessoal. Eu não sou muito de reclamar, mas preciso contar meu caso, que infelizmente é muito parecido com o da Gabriella Pinheiro e de muitos outros no momento. Vou deixar as referências no final.

Pra quem não sabe, trabalho em pesquisa desde desde a graduação, estou com a defesa de mestrado marcada e recentemente fui selecionado em primeiro lugar para o doutorado em Eng. Elétrica na UFRJ com nota 10. Mas ontem recebi a notícia de que todas as bolsas CAPES /CNPq para os selecionados seriam cortadas. Sabem o que isto significa? Que as opções do momento são pesquisar de graça ou o desistir do doutorado na UFRJ. Mas com certeza na notícia você vai ver a CAPES e CNPq dizendo que “só cortaram bolsas ociosas” [1] ou que é apenas um “congelamento das bolsas” [2].

Bom, situação triste à parte, convido aos que estão lendo a tentar responder a algumas perguntas:

1) Você sabe os valores de uma bolsa de pesquisa do CNPq/CAPES? Quanto você acha que é?

2) Quanto você acha que os cortes das bolsas vão economizar nos cofres públicos?

3) Quantas horas por dia você acha que um pesquisador trabalha?

4) Você sabe identificar quem são os pesquisadores com maior renome e produção científica no Brasil?

PARE AGORA e PENSE nessas perguntas. Não vá direto para as respostas.

R1) Para graduandos, é R$ 400. Menos de meio salário mínimo. Para mestrandos, que já são profissionais formados, R$ 1500 ou cerca de 1,5 salário mínimo. Para doutorandos, R$2200, pouco mais de dois salários mínimos. Desde 2013 sem reajuste [3, 4].

R2) A CAPES economizou 38 milhões de reais [2] e o CPNq 60 milhões com os cortes esse ano [1]. Total: $98 milhões em 10mil bolsas. Muito, né? Coincidência ou não, esse é o valor gasto só este ano em cotas parlamentares para passagens aéreas, conta de celular, veículo particular, etc. [5]. Aliás, os 513 deputados no total custam até 10x esse valor por ano aos cofres públicos [6].

R3) Bolsistas costumam cumprir até 40h semanais de dedicação integral à pós-graduação. Muitas vezes, eu e outros tantos pesquisadores trabalhamos mais de 10h por dia entre aulas, leitura de artigos e produção científica. Sem férias, sem 13º, sem contar o período da pós-graduação para a aposentadoria.

R4) Uma boa forma é verificar o currículo Lattes do pesquisador. Vejamos dois exemplos.
i) Ricardo Galvão, ex-diretor do INPE exonerado por “publicar dados mentirosos e estar a serviço de ONGs internacionais”. Doutorado no MIT, mais de 200 publicações, 11 prêmios, bolsista de produtividade nivel sênior do CNPq [8].
ii) Abraham Weintraub, ministro da Educação. 4 publicações em 7 anos [9].

E aí? Se surpreenderam? Pois é. E no meu caso, ainda é um doutorado em engenharia. A área privilegiada, a pesquisa aplicada, a “prioridade nos investimentos do governo”. Meritocracia que fala, né?

Tenho três anos de pesquisa, 10 publicações nacionais e internacionais, 5 prêmios. E aí, que diferença fez? Estamos todos no mesmo barco. Somos todos mão de obra barata. E estamos todos impossibilitados de continuar nossas pesquisas.

Acordem. Isso não é meritocracia e nem prioridades. Isso é uma agressão direta à ciência e à pesquisa no Brasil.

Referências:
[1] https://exame.abril.com.br/…/cnpq-suspende-oferta-de-45-mi…/
[2] https://www.capes.gov.br/…/9796-capes-congela-bolsas-para-e…
[3] http://memoria.cnpq.br/…/jour…/56_INSTANCE_0oED/10157/971393
[4] https://www.capes.gov.br/…/prestacao-de-c…/valores-de-bolsas
[5] https://www.camara.leg.br/transparenc…/gastos-parlamentares…
[6] https://congressoemfoco.uol.com.br/…/lista-todos-os-salari…/
[7] https://www.capes.gov.br/…/relat…/ModeloTermoCompromisso.pdf
[8] http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do…
[9] http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do…

guidonietmann

guidonietmann

Guido Nietmann é fotógrafo e mora há 7 anos em Paraty. Em parceria com a fotógrafa Roberta Pisco, criou a Fotos Incríveis, empresa especializada que atua com fotografia imobiliária, gastronômica, fotografia aérea, fotografia de produtos e também com ensaios. Apaixonado por Paraty, não se cansa de retratar as belezas da cidade e nutre uma paixão  especial pela Igreja de Santa Rita! Contato e mais informações: www.fotosincriveis.com.br

Deixe aqui sua opinião sobre este assunto!