Em Goutam Ghose Par (1984), o diretor encena uma travessia tão brutal quanto simbólica – um homem e uma mulher atravessando um rio caudaloso, pastoreando porcos para sobreviver. Décadas depois, Ghose se vê atraído por um tipo diferente de travessia. Uma que transita entre duas cidades, dois arquivos e dois tipos de memória.
Em Calcutá, como xerife, ele está trabalhando para restaurar os frágeis registros do Tribunal Superior da period colonial. Em Chennai, ele tenta salvar seus próprios filmes, cujos negativos estão rachando com o tempo.
Nos Laboratórios Prasad, em Chennai, o passado regressa através de rolos fragmentados e faixas de som que sobreviveram aos sistemas destinados a protegê-los. “Antes, os produtores sabiam que os negativos dos filmes estavam em laboratórios, mas ninguém realmente se importava”, diz Ghose. A mudança do analógico para o digital por volta de 2012 apenas agravou esta negligência. Os laboratórios fecharam, os controles climáticos falharam e os frágeis filmes foram deixados em decomposição. Quando Ghose começou a traçar seu próprio trabalho, ele encontrou tanto danos quanto possibilidades.
O que antes period indiferença se transformou em uma corrida contra o tempo. Enquanto filmes como Par já foram restaurados, Antarjali Jatra (1987) está atualmente em andamento, e Dokhol (1981) permanece um trabalho em andamento. Entre os documentários, os sobre Bismillah Khan (Sange Meel Se Mulaqat1989) e Satyajit Ray (Raio1999) foram restaurados. Por enquanto, o esforço tem sido guiado tanto pela sobrevivência como pelo sentimento. Os filmes que puderam ser recuperados em condições funcionais tiveram precedência. Muitas dessas obras marcam momentos decisivos na carreira de Ghose, tornando sua recuperação profundamente pessoal.
Goutam Ghose | Crédito da foto: Arranjo Especial
O que mudou, observa Ghose, foi o ecossistema em torno desses filmes. As plataformas OTT estão a redescobrir obras mais antigas, criando um apetite renovado pela restauração. “O que está disponível on-line é muitas vezes de muito má qualidade”.
Se Chennai é onde Ghose restaura seu passado cinematográfico, Calcutá é onde ele confronta um arquivo diferente. Como xerife, um cargo estabelecido em 1776, nos primeiros anos da Companhia das Índias Orientais, o seu papel é em grande parte honorário, mas repleto de responsabilidade institucional. Envolve compromissos públicos e uma conexão com órgãos cívicos, incluindo espaços como a Cadeia da Presidência. Mais significativamente, levou-o a um esforço contínuo junto do Tribunal Superior de Calcutá para preservar registos jurídicos centenários.
Esses documentos, com mais de 250 anos, são frágeis, desbotados e correm o risco de desaparecer por completo. “Eles contêm tudo, desde quem foi julgado, quem foi punido, quais decisões foram tomadas”, diz Ghose. Restaurá-los não é apenas um exercício de arquivo, mas um ato de recuperação histórica. Existe, nestes artigos, a possibilidade de revisitar narrativas familiares e de olhar novamente para momentos como o rescaldo da Batalha de Plassey, para as estruturas de poder em mudança sob o domínio colonial.
Os paralelos entre os dois papéis são difíceis de ignorar. Em ambos, Ghose trabalha contra o apagamento.

Gautama Ghose | Crédito da foto: Arranjo Especial
Chennai, com sua robusta infraestrutura cinematográfica, oferece um vislumbre do que é possível. “Quando visitei Prasad, vi uma enorme unidade de restauração onde estão sendo trabalhados tantos filmes. Isso é um sinal muito positivo”, diz ele. Também aumenta o contraste. A indústria cinematográfica bengali, ressalta ele, enfrenta dificuldades com a rotatividade e a distribuição. Os hábitos do público mudaram.
Para Ghose, a restauração não é um exercício de nostalgia. É uma forma de garantir a continuidade, permitindo que obras, tanto cinematográficas como históricas, continuem a fazer parte da vida pública. Há, no entanto, uma nota profundamente pessoal por trás de tudo. “Se eu pudesse ver todos os meus filmes restaurados durante a minha vida, isso me daria imensa satisfação”, diz ele.

Entre Calcutá e Chennai, entre autos judiciais e celulóide, o trabalho de Ghose circula a mesma ideia de que aquilo que herdamos corre sempre o risco de se perder. O passado, como em Parpermanece como um rio caudaloso, incerto, difícil de atravessar, mas recusando o apagamento, regressando lenta e insistentemente à luz das imagens em movimento.
O que você deve assistir
‘Bhuvan Shome’ de Mrinal Sen (1969), ‘Calcutá 71’ (1972), ‘Mrigayaa’ (1976), ‘Kharij’ (1982)
‘Meghe Dhaka Tara’ de Ritwik Ghatak (1960), ‘Subarnarekha’ (1962), ‘Titash Ekti Nadir Naam’ (1973)
‘Kabuliwala’ de Tapan Sinha (1957), ‘Jhinder Bandi’ (1961), ‘Hatey Bazarey’ (1967), ‘Ek Physician Ki Maut’ (1990)
‘Pather Panchali’ de Satyajit Ray (1955), ‘Charulata’ (1964), ‘Jalsaghar’ (1958)
Publicado – 02 de abril de 2026 07h01 IST













