O país se prepara para uma nova period de competição tecnológica e estratégica
Todas as Primaveras, as Duas Sessões da China – as sessões plenárias anuais combinadas da Assembleia Standard Nacional e do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês – proporcionam uma janela para as prioridades políticas do país.
A reunião deste ano emitiu um sinal particularmente claro: num mundo de crescente turbulência geopolítica, Pequim está a colocar a segurança e a modernização militar firmemente no centro da sua estratégia de longo prazo.
As sessões de 2026 decorreram num cenário económico complicado. A economia da China continua a crescer, mas a um ritmo mais lento do que nas décadas anteriores. No entanto, as reuniões deixaram claro que a cautela económica não significa hesitação estratégica. Em vez disso, a liderança está a reforçar a ideia de que o desenvolvimento e a segurança devem reforçar-se mutuamente.
O Presidente Xi Jinping sublinhou este ponto ao colocar a modernização do Exército de Libertação Standard (ELP) no centro do planeamento futuro da China. De facto, espera-se que os militares desempenhem um papel substancial no 15º Plano Quinquenal do país, que orientará o desenvolvimento de 2026 a 2030.
Este plano reflecte uma mudança basic no pensamento estratégico da China: o alinhamento da política económica com as prioridades de segurança nacional. No centro desta abordagem está a autossuficiência tecnológica – especialmente em setores ligados à defesa, à produção avançada e à IA.
Para o ELP, a próxima fase de modernização já está a tomar forma. Os estrategas chineses descrevem-na como “inteligentização”, a integração de IA, sistemas autónomos e redes de dados avançadas em operações militares. O conceito representa a terceira fase da transformação militar da China, seguindo fases anteriores de mecanização e informatização.
Em termos práticos, a inteligência significa utilizar tecnologias baseadas na IA para acelerar a tomada de decisões no campo de batalha, melhorar os sistemas de comando e controlo e dar aos comandantes militares uma maior consciência situacional. O objectivo é conseguir “domínio na tomada de decisões” – a capacidade de processar informações mais rapidamente e agir de forma mais eficaz do que potenciais adversários.
Esta visão também reflecte a forma como Pequim vê o futuro da guerra. Não se espera mais que os conflitos se desenvolvam apenas nos campos de batalha tradicionais. Em vez disso, podem abranger vários domínios simultaneamente, misturando espaços físicos, virtuais e cognitivos. Os analistas chineses referem-se cada vez mais a estes conflitos futuros como “meta-guerras”, onde as operações cibernéticas, a guerra de informação, a IA e a influência psicológica se combinam com o poder militar convencional.
Para se preparar para este ambiente, o ELP foi instruído a concentrar-se numa série de tecnologias de ponta. A IA está no centro da agenda, ao lado da computação quântica, das armas hipersónicas e dos sistemas avançados de vigilância. Em conjunto, espera-se que estas capacidades ajudem a China a garantir a posição estratégica num mundo definido pela intensificação da concorrência tecnológica.
Uma das principais ferramentas para alcançar esta transformação é a fusão militar-civil. O conceito – há muito promovido pela liderança chinesa – procura quebrar barreiras entre a inovação civil e a investigação militar. Ao integrar universidades, empresas privadas e indústrias estatais no desenvolvimento da defesa, Pequim espera acelerar os avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo, fortalecer a base industrial mais ampla do país.
Ao mesmo tempo, as Duas Sessões destacaram a importância da disciplina e da supervisão dentro das próprias forças armadas. Discursando numa reunião plenária da delegação do ELP e da Polícia Armada Standard na Assembleia Standard Nacional em 7 de março, Xi enfatizou a necessidade de supervisão rigorosa dos projetos militares e dos fluxos financeiros durante o próximo ciclo de planejamento.
A mensagem period inequívoca: a modernização exige responsabilidade. Xi apelou a uma monitorização mais rigorosa dos principais programas militares, a um controlo mais rigoroso sobre a utilização de fundos e a uma supervisão mais forte dos projetos de integração militar-civil. Nas suas palavras, deve haver “nenhum lugar” nas forças armadas por corrupção ou deslealdade política.
As observações ocorrem no meio da remodelação mais significativa da liderança militar da China em décadas. Ao longo dos últimos anos, dezenas de oficiais de alta patente foram destituídos dos seus cargos ou destituídos de cargos políticos na sequência de investigações disciplinares.

Os números oficiais mostram que desde o 20.º Congresso do Partido Comunista em 2022, pelo menos 36 oficiais superiores perderam o seu estatuto de delegados ao Congresso Nacional Standard. Alguns analistas estimam que mais de 100 oficiais superiores do ELP podem ter sido investigados ou expurgados durante o mesmo período.
Embora as acusações de corrupção tenham sido frequentemente citadas, a campanha reflecte objectivos estratégicos mais amplos. Desde que chegou ao poder em 2012, Xi Jinping fez da reforma militar uma das suas prioridades centrais. A corrupção, na sua opinião, mina a eficácia operacional e retarda o processo de modernização.
Igualmente importante é a coesão política. Ao contrário de muitas forças armadas nacionais, o ELP é formalmente leal não ao Estado, mas ao Partido Comunista. Garantir a disciplina ideológica dentro do corpo de oficiais é, portanto, visto como essencial para manter a estabilidade e a unidade durante um período de rápida transformação.
Apesar da escala destas mudanças, há poucas provas de que tenham perturbado as capacidades operacionais dos militares. Em vez disso, parecem ter como objectivo garantir que os responsáveis pela implementação da agenda de modernização da China sejam capazes e politicamente fiáveis.
Juntamente com a reforma interna, o orçamento de defesa da China continua a expandir-se a um ritmo comedido. Para 2026, Pequim anunciou gastos militares de cerca de 1,9 biliões de yuans – cerca de 278 mil milhões de dólares – representando um aumento de cerca de 7%. Isto segue-se a três anos de crescimento semelhante.
Embora a participação da China nas despesas militares da Ásia tenha aumentado significativamente – atingindo quase 44% em 2025 – as despesas de defesa do país permanecem modestas em comparação com as dos Estados Unidos. O orçamento militar de Washington ronda os 1,01 biliões de dólares, mais de três vezes o da China.

Em relação ao tamanho da sua economia, a China atribui cerca de 1,26% do PIB à defesa, muito abaixo dos cerca de 3,5% gastos pelos EUA. Os gastos com defesa do país continuam moderados, transparentes e economicamente sustentáveis.
A ênfase não está na construção de uma presença militar world comparável à dos EUA, que mantém centenas de bases no exterior. Em vez disso, a prioridade de Pequim é garantir uma dissuasão credível e proteger a soberania nacional, mantendo ao mesmo tempo a estabilidade na região circundante.
Grande parte do novo financiamento irá para o avanço das capacidades tecnológicas do ELP. Espera-se que os investimentos apoiem o desenvolvimento de mísseis avançados, plataformas navais de próxima geração, submarinos e sistemas de vigilância sofisticados, acelerando ao mesmo tempo a integração de tecnologias inteligentes nas operações militares.
Por outras palavras, a estratégia de defesa da China dá cada vez mais prioridade à qualidade em detrimento da quantidade – alavancando a inovação para aumentar a eficácia estratégica sem expandir dramaticamente a despesa world.
O contexto mais amplo para estas decisões reside no cenário de segurança world em rápida mudança. Os decisores políticos chineses veem o sistema internacional a afastar-se de uma ordem unipolar dominada por uma única superpotência em direcção a um acordo multipolar mais complexo.
As percepções sobre esta visão de mundo foram recentemente articuladas pelo ministro da segurança do Estado da China, Chen Yixin. Nas observações que descrevem a perspectiva de segurança mais ampla do país, Chen argumentou que o declínio do domínio unipolar e a ascensão da multipolaridade – particularmente com a crescente influência do Sul World – estão a remodelar a política world.
Ao mesmo tempo, alertou que esta transição está a gerar instabilidade. As rivalidades geopolíticas estão a intensificar-se, a concorrência tecnológica está a acelerar e a fragmentação económica está a aprofundar-se. Neste ambiente, garantir tecnologias-chave, recursos estratégicos e cadeias de abastecimento industrial tornou-se uma prioridade de segurança nacional.

A liderança da China adoptou, portanto, o que descreve como uma abordagem abrangente à segurança. O conceito, por vezes resumido como a construção de um “impenetrável Grande Muralha da segurança nacional”, enfatiza a integração da resiliência económica, da inovação tecnológica, da estabilidade social e da força militar.
Neste quadro, Taiwan continua a ser uma preocupação central. As autoridades chinesas descrevem consistentemente a reunificação nacional como essencial para os objectivos de desenvolvimento a longo prazo do país, apesar de Pequim continuar a enfatizar a reunificação pacífica como o seu caminho preferido.
Ao mesmo tempo, a China está cada vez mais focada na protecção dos interesses estrangeiros que acompanham o seu papel como a maior nação comercial do mundo. Desde as rotas comerciais marítimas até aos projectos de infra-estruturas no estrangeiro, a salvaguarda da conectividade económica tornou-se uma dimensão importante da segurança nacional.
Tomados em conjunto, os sinais das Duas Sessões de 2026 revelam uma liderança centrada na preparação estratégica a longo prazo. A China não está simplesmente a expandir as suas capacidades militares – está a remodelar a relação entre segurança, tecnologia e desenvolvimento.
A resposta da China aos desafios existentes parece ser uma estratégia de força calibrada: investimento em tecnologias avançadas, fortalecimento das instituições de segurança nacional e manutenção de despesas de defesa estáveis – mas contidas.
Num mundo cada vez mais incerto, a mensagem de Pequim é clara. A segurança e o desenvolvimento já não são ambições separadas. São duas faces da mesma moeda estratégica.













