Quem seria o Brasil sem o negro que habita em nele?

Hoje gostaria de dividir com vocês uma inquietude  e um sentimento muito latente em mim, que diz respeito do negro que habita em mim. Em quais momentos sou eu ou o negro que habita  em mim? Como posso me comunicar com algo que não conheço? Quem são e quem sou eu? Para certas inquietudes sei que não vou obter a resposta que talvez quisera receber. 

Dentro do que eu acredito e conheço, e através da fotografia venho mostrar um pouco mais da minha intimidade ancestral, onde eu sou o negro que habita em mim, é aqui que converso sobre as minhas inquietudes ancestrais, e colho força para encarar os dias da semana.

Eu acredito que seja uma espécie de terapia analítica, onde eu sou o locutor e eles são interlocutores, que na maioria da vezes são silenciosos para as minhas inquietudes, mas ao mesmo tempo sinto alívio quando expresso os meus medos, angústias, a minha falta de compreensão para algumas questões da vida, é neles que eu busco o apio imaterial. 

Antes de tudo, quero reverenciar e pedir licença aos meus maiores…

Abertura devocional obrigatória.

A tradição diz que para esse tipo de devocional, antes de qualquer coisa se deve nombrar  com voz firme o nome de cada um dos seus Egguns (espírito mortos da sua parentela).

Egguns (meus mortos)

Ibae Benedito Carvalho dos Santos(avô paterno), Ibae Eda Teodora Carvalho dos Santos(avó paterno), Ibae Edurval Carvalho dos Santos(pai), Ibae Cleia Firmino dos Santos(mãe) por isso:

Bernedito (Dito)Edurval (pai)Cleia (mãe)

Seguindo a devocional, Todas segundas-feiras, eu levo os Gurreiros Odé Elegba-Exu, Oggun e Oxóssi para tomar banho de sol, a um lugar que seja o mais ambientado, onde eu sinta que eles estão conformes,  papo vai e papo vem! Antes do meio-dia eu os levo  para dentro de casa. O lugar tradicional onde vive Elegba-Exu é atrás das portas das casas, este simbolismo está relacionado porque ele é o guardião e possuidor das chaves dos portais dos caminhos dos homens, não se pode contar com nada, sem antes pedir a sua colaboração.

 

Raza para Elegba

OMi tuto, Ona tuto, tuto laroye, tuto Ilé, Eshu Agogo, Eshu Alagguana, Eshu Agotipongo, Eshu Ayomamaqueño, Moyubao Iyalocha Moyubao Iyabbona. Quincamanché  Camaricú, Cama Omó, Cama Ifi, Cama Oña, Cama Ayaré Unló Ona quebofi queboada.

Ase

Exu LayéAse

Tradução:

Te refresco para que me abras o caminho, com permissão dos mues maiores, eu toco a campainha, para que tu me abras a porta. Contando também com o meu Guardião Shango Baba, Padrinho, Madrinha e todos os presentantes do Tabuleiro Yorubá.

Peço desenvolvimento espiritual, Saúde, paz e amor para mim  todos da minha família e amigos.

Ase

Suyere (canto)

Elegbara Ni kokore villa
Baratento numale, nimale kondolo
Iku yelede baraki yelu
Eshu Afra

Bara laroye oda omo oni Alawana mamakeño irawo, eh

Barasuayo, omo oni Alawana mamakeño irawo, eh
Barasuayo, omo oni Alawana mamakeño irawo, eh
Obara suayo eke, Eshu odara
Omo oni Alawana mamakeño irawo, eh

Ase Moyuba Orisa

Ase Moyuba Orisa

Ase Moyuba Orisa

omo oni Alawana mamakeño irawo, eh

Ase

Logo depois mastigo 3 grãos de pimenta negra (sem engolir), um gole de cachaça (sem engolir) e sopro em Elegba-Exu, acendo um charuto e dou umas quantas baforadas nele, em seguida o banho com azeite de dendê e um pouco de mel puro. Por último se oferece pequenos pedaços de frutas (goiaba é sua preferida), algumas balas doces, de preferência cocada  e outros tipos de comida para não ser extenso.

Ao lado de Elegba-Esu está  Oggun e Oxóssi em caldeirão de ferro fundido de três pés e as ferramentas respectivas de cada  Orixá. Que também se da comida nesse dia, mas vamos ao objetivo.

Agora sim! podemos conversar?

Para uma pessoa saber quem ela é demora! Ela vai ter que recorrer um longo caminho ao seu passado, muitas vezes não é tão fácil chegar lá. Pode ser que morramos sem conseguir descobrir de onde viemos. Dentro da cultura e religião Yoruba a reverência aos Egguns (espírito dos mortos da sua parentela) é o passo fundamental para a identificação da memória ancestral.

Na minha experiência de vida, observando conversações que tive com amigos brancos de diferentes nações, constatei que a grande dificuldade para os negros se entenderem com tal, está na raiz. Observei na fala unânime deles que todos sabiam de onde vinham os seus antepassados, teve alguns que conseguiam falar  sua genealogia até seu tataravô. isso tem tudo a ver com a forma de como chegaram no Brasil  ou outros  países das Américas.

Agora observando a minha historia e comparando com a de outros amigos negros de diferentes nações do continente americano, se observa a grande dificuldade de saber sua origem mais próxima, no meu caso, recente mente ganhei uma foto do meu avô paterno Benedito Carvalho dos Santos, foi aí que descobri uma parte do meu rosto, mas do meu lado materno não existe a informação de pelo menos quem seria a minha avó. Mais eu não sou um caso à parte! A maioria dos meus amigos negros não conseguem dar informações da sua parentela, o máximo que conseguem chagar é até seus avós. Isso se deve ao desarraigo familiar produzido pela escravidão nas Américas.

Nossos ancestrais nos deixaram heranças importantíssimas tanto material como imaterial.

Voces já imaginaram… o que seria do Brasil  e as Américas sem a presença histórica do negro? Você já imaginou o Brasil sem Samba, capoeira, jongo, feijoada, acarajé etc…? Indo mais além, imaginem as três Américas sem negros, não dá para imaginar né? Só um vazio sem fim. Isso se chama identidade! Não há forma de ser sem a identificação de origem.

A grande incógnita de tantas outras que nós negros carregamos na nossa vida, é a dificuldade de entender quem somos realmente. O roubo histórico material e imaterial produzido pelo tráfico negreiro nas Américas é impossível de reparar.

Você nunca se perguntou, o que seria do negro sem a sua imaterialidade? Existe 3 sem 2? Sem a sua cultura e sem o conhecimento da sua religião, não existe o negro.

Axé

Orummila awo  Iboru Orummila awo Iboya Orummila awo Ibosese

Bruca Manigua

Bruca Manigua

Bruca Manigua (Clelson Carvalho) é brasileiro, tem 43 anos e é Cozinheiro, Dançarino e Fotógrafo. Seu estilo de fotografia é a fotografia em preto e branco.  Bruca trilhou por diversos caminhos na vida até chegar aqui, Psicologia, gastronomia, dança, teatro e a fotografia chegou na minha vida de uma forma incomum, como uma impaciência inconsciente de expressar tudo que os seus olhos registravam. Nunca foi a uma escola de fotografia, tudo que aprendeu foi por instinto, lendo livros de arte e fotografia e conselhos de colegas mais experientes. Não se considerava fotógrafo até 2 anos atrás, quando a ficha caiu! Em 2018 participou de um concurso on line de fotografia -  o 35awards na Rússia -  e ficou entre os 20 melhores fotógrafos brasileiros que participaram do concurso com uma foto publicada no livro do próprio concurso. Em 2019 está entre os 300 melhores fotógrafos brasileiros do concurso com 3 fotografias publicada no livro do concurso.

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