Onde está o que nos representa em Paraty?

 

 Essa noite muito difícil dormir, pelos seguintes motivos que vou relatar: Eu estava buscando em meus Arquivos de imagens algo que pudesse falar do que me representa como pessoa negra que vive na cidade Paraty, olha que não são poucas imagens! Depois de buscar  em quase 7 mil arquivos de fotografias de Paraty, não encontrei nada que eu possa homenagear e reverenciar àqueles que ergueram essa cidade.

Essas foram as imagens: A primeira igreja de Paraty, situada em Paraty-Mirim, ao lado dela ficava o mercado de escravos, ela é um dos exemplos que não nos representa. Até mesmo depois da escravidão o comércio da compra e venda de escravos continuou clandestinamente por um período nessa zona. Então vamos observar alguns pontos, um escravo sem ser batizado não tinha valor comercial, então aí temos uma igreja ao lado do mercado de escravos.

2 – Depois tem a linda igreja no largo de Sta Rita, o mais curioso neste largo tem um irmão negro trajando roupa de escravo, ele faz um trabalho lindo, dando informações históricas aos turistas, Sempre que passo por ali e vejo essa imagem, me dá vontade de chorar! Não pelo trabalho que ele realiza, mas  sim, pela memória de sofrimento que me trás essa imagem. Talvez ele seja a única imagem que representa a Escravidão que houve em Paraty  naqueles tempos.

3 – A outra fotografia que eu gostaria de comentar é a do caminho do ouro, que para mim é o caminho do horror! Vocês têm dimensão do que é caminhar 450 kms mais ou menos e ainda em Situação de escravizado? Tudo isso me causou uma revolta absurda! Aprendi a amar essa cidade, Outro dia em uma postagem, falei da satisfação de viver em uma cidade diversa, mas pera aí! Está faltando algo muito importante nessa diversidade, não? Não há um só monumento que faça viver a memória daqueles negros que aqui deixaram o seu sangue, suor, lágrimas e principalmente suas vidas! Ainda que em situação de escravizado o negro sempre contribuiu com o melhor de seus conhecimentos em arquitetura, artesanato, música, danças, gastronomia etc… Não há como negar essa presença, mas quando não existe registros, monumentos adequados referente a essa memória, todo trabalho duro de sol a sol fica invisível, como se nunca houvera escravos em Paraty.

Obs: Sem mencionar a capela dos Negros, essa eu nem chego perto! Não dá para considerar uma igreja para escravizados como ato de boa fé, né? Tendo em vista que eles desembarcaram em solo brasileiro sendo Yoruba com suas tradições de cultos e ritos.

Viver em uma cidade que tem o título de patrimônio histórico da humanidade, cidade que já homenageou na FLIP de 2017 o grande escritor negro Lima Barreto, que sempre em suas linhas foi muito critico aos privilégios de brancos. Paraty dentro de toda essa diversidade de cultural, que atrai milhares de olhos do mundo todo, ainda não humanizou um lugar de homenagem para àqueles que ergueram seus casarões e igrejas em situação de escravizados. Não soa tão bem para os seus descendentes, quando eles não podem visualizar nada que faça representação da sua origem, não há nenhuma festa que por ventura era somente os negros que faziam, nada que represente sua cultura, então está faltando mesmo algo nessa diversidade dentro e as fora do centro histórico de Paraty.
“… então eu choro, sem que tu saibas que no meu choro tem lágrimas negras, tem lágrimas negras como a minha vida…” (extraída da letra do som cubano Lágrimas Negra)

Foto: @bruca.manigua

Bruca Manigua

Bruca Manigua

Bruca Manigua (Clelson Carvalho) é brasileiro, tem 43 anos e é Cozinheiro, Dançarino e Fotógrafo. Seu estilo de fotografia é a fotografia em preto e branco.  Bruca trilhou por diversos caminhos na vida até chegar aqui, Psicologia, gastronomia, dança, teatro e a fotografia chegou na minha vida de uma forma incomum, como uma impaciência inconsciente de expressar tudo que os seus olhos registravam. Nunca foi a uma escola de fotografia, tudo que aprendeu foi por instinto, lendo livros de arte e fotografia e conselhos de colegas mais experientes. Não se considerava fotógrafo até 2 anos atrás, quando a ficha caiu! Em 2018 participou de um concurso on line de fotografia -  o 35awards na Rússia -  e ficou entre os 20 melhores fotógrafos brasileiros que participaram do concurso com uma foto publicada no livro do próprio concurso. Em 2019 está entre os 300 melhores fotógrafos brasileiros do concurso com 3 fotografias publicada no livro do concurso.

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