O BOM DIA DOS ESTRANHOS

Por que a gente dá bom dia pra quem não conhece? E por que não dá boa tarde nem boa noite quase nunca? A resposta é a Teoria do Início dos Ciclos!

As pessoas enxergam o mundo por ciclos. É como se a vida fosse complicada demais para ser administrada como um só evento. Daí a necessidade dos ciclos. Ouvi alguém dizendo: ‘Chegou Outubro. Que este seja um mês abençoado! Amém!’ É como se Deus pensasse: ‘Ah, sabe de uma coisa? Setembro foi meio sofrido pra eles, vou pegar leve em Outubro e facilitar um pouco as coisas.’

É a mania humana de querer controlar o que não tem controle. Os rituais de fim de ano são uma prova. Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo! É uma ingratidão com o Ano Velho, né? O ano que vem chegando nem imagina que em Dezembro será descartado também. Será tratado como velho e ineficiente. Só é amado antes de chegar. Depois lhe será cobrada a tal prosperidade prometida. Aí ele ri da nossa cara e vai embora devendo.

Os inícios de período dão uma espécie de esperança. Tudo que está no começo é visto com bons olhos. Cuidado com a boa impressão. Ela acarreta responsabilidades. Eu tinha mania de causar uma primeira boa impressão. Ser o cara mais legal do mundo com a nova namorada ou com o novo empregador. O problema é que depois, se eu não fosse o cara mais legal do mundo por um dia, a confiança já era. Aí eu comecei a ser eu mesmo. Legal só de vez em quando. Tá bom. Quase nunca! Todos deviam experimentar. É libertador.

Isso acontece até com o dia que está começando. Dificilmente um estranho te cumprimenta de tarde ou de noite. Se isso acontecer, ficamos até com certo receio. ‘Opa, é assalto!’ Agora, de manhã… É um festival de ‘bom dia’ pra lá… ‘bom dia’ pra cá… Gente que você nunca viu na vida te desejando bom dia. As pessoas estão receptivas. Cheias de amor e solidariedade. Até que a manhã vai embora. E cada um começa a pensar em si mesmo de novo. O mundo volta ao normal. Ou será que sai do normal?

Por um mundo mais cheio de manhãs com pessoas desconhecidas e solidárias dando bom dia pra todo mundo! Reivindiquemos!

Mas de alguma forma os ciclos nos ajudam. Nós os criamos e agora precisamos deles. Nos dão ânimo para começar algo. É a velha história da nova dieta que começa na segunda-feira. É o cigarro que será abandonado assim que acabar o mês. É o livro que ainda vou começar a ler, é o curso que logo vou começar a fazer. Deixa começar o semestre. Deixa virar o mês. Precisamos disso. Senão, não fazemos nada. Contradizemos os clichês que criamos. Achamos sublime citar frases que valorizam o tempo presente. ‘Viva como se fosse o último dia’… ‘esse minuto que está passando agora jamais voltará’… ‘comece agora o que quer fazer e não deixe pra depois’… ‘quem quer faz, quem não quer arranja um desculpa’… Só que no fim das contas, o que conta são os ciclos. E assim o tempo vai passando, o relógio vai correndo e nenhum de nós jamais vai enxergar que tudo não passa de datas.

E que este seja um mês abençoado!

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Hugo Brasarock

Hugo Brasarock é um músico premiado em alguns festivais de MPB Brasil afora, compositor, poeta e escritor, é autor do livro A Lenda da Velha Barrageira, que conta a história de uma lenda urbana de Ilha Solteira, sua cidade natal. Professor de Inglês e de Literatura, atualmente leciona em dois colégios de Paraty.

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