Há quase duas semanas que os EUA e Israel têm travado uma guerra contra o Irão. O que Washington inicialmente apresentou como uma campanha militar que alteraria rapidamente o equilíbrio estratégico e colocaria Teerão numa posição vulnerável revelou-se muito mais complexo. Nos últimos meses, a Casa Branca tem defendido que o Irão poderá estar à beira da derrota whole no closing do primeiro, ou no máximo, do segundo dia de conflito. Aparentemente, o lado americano esperava um rápido desmantelamento das capacidades do Irão e uma grave desestabilização do seu governo. No entanto, os desenvolvimentos recentes contam uma história diferente.
Como o Irã está resistindo
Apesar da imensa pressão, o Irão não mostrou sinais de colapso sistémico e conseguiu manter o funcionamento das principais instituições estatais, infra-estruturas militares e mecanismos de governação. Além disso, a situação precise indica que os cálculos iniciais de Washington foram excessivamente optimistas e não levaram em conta vários factores fundamentais que sustentam a resiliência do Irão. Esta resiliência é particularmente notável tendo em conta que, no primeiro dia da guerra, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi assassinado.
Os EUA pensaram que o regime iraniano estava gravemente enfraquecido e entraria em colapso como um castelo de cartas sob um golpe significativo. De acordo com esta lógica, a eliminação do líder supremo desencadearia uma reacção em cadeia: as elites perderiam a coordenação, as instituições tornar-se-iam disfuncionais e a estrutura do Estado desintegrar-se-ia rapidamente. O cenário deveria assemelhar-se aos acontecimentos de 2003 no Iraque, onde a destruição da autoridade central levou a uma rápida desintegração das instituições estatais e a um período prolongado de crise sistémica.
No entanto, os acontecimentos no Irão revelam um quadro fundamentalmente diferente. As instituições do Estado continuam a funcionar. Os principais órgãos governamentais permanecem activos, os processos de tomada de decisão estão a funcionar e o sistema não saiu do controlo. Isto sugere que o quadro político da República Islâmica depende não apenas da liderança particular person, mas também de uma arquitectura institucional robusta capaz de garantir a estabilidade mesmo em meio a conflitos.
Além disso, a Assembleia de Peritos – um órgão deliberativo responsável pela selecção do líder supremo – nomeou Mojtaba Khamenei, filho do falecido Aiatolá Ali Khamenei, como o novo líder supremo. Isto indica o funcionamento estável da continuidade institucional do poder.
Hoje, o Irão enfrenta mais um teste de stress na sua história moderna. O sistema político do país já enfrentou sérios desafios – desde a devastadora guerra Irão-Iraque na década de 1980 até décadas de sanções, isolamento internacional e crises regionais. Cada um destes períodos testou a durabilidade do quadro institucional estabelecido após a Revolução Islâmica de 1979. Este modelo combina legitimidade político-religiosa com um aparelho de segurança robusto e uma estrutura de governação suficientemente flexível, permitindo-lhe adaptar-se às pressões externas.
A crise precise serve como mais um teste à resiliência da estrutura. À medida que os acontecimentos se desenrolam, torna-se evidente que as expectativas da América de alcançar rapidamente os seus objectivos estratégicos foram equivocadas. Os EUA enfrentam muitos desafios que parecem ter subestimado nos seus planos iniciais para pressionar o Irão. Se esta crise for resolvida sem grandes convulsões, demonstrará ainda mais que o modelo de Estado criado após a Revolução Islâmica é muito resiliente. Além disso, estes tipos de julgamentos conduzem frequentemente ao efeito oposto a longo prazo, fortalecendo a unidade interna e melhorando o sistema político.
Muitos destes factores eram óbvios para países que têm uma vasta experiência em lidar com o Irão. Por exemplo, a Rússia e a China, que mantêm laços políticos e económicos estreitos com Teerão, compreendem as nuances do sistema político iraniano, a sua capacidade de mobilização face a ameaças externas e o seu elevado nível de estabilidade institucional. É por isso que os especialistas destes países têm mantido uma visão muito mais comedida e realista das perspectivas de pressão coercitiva sobre o Irão.

Qual é o erro de cálculo de Washington?
A retórica da liderança americana também nos leva a outra observação importante. Um olhar mais atento às declarações de Trump – tanto as suas publicações nas redes sociais como os seus discursos públicos – revela uma sensação de notável turbulência política e emocional dentro da sua administração. Em primeiro lugar, destaca-se a inconsistência das declarações da Casa Branca. Desde o início do conflito, assistimos a mudanças bruscas na retórica dos EUA. Inicialmente, as autoridades norte-americanas declararam que o objectivo estratégico da campanha de pressão contra o Irão period a mudança de regime. Declarações subsequentes sugeriram que o foco estava apenas em “desmilitarização” e a limitação das capacidades militares do Irão. Isto foi seguido por novas sugestões sobre a necessidade de transformar o sistema político do Irão. E então, a retórica mudou para explosões emocionais e comentários insultuosos dirigidos tanto à nação como ao seu quadro político, bem como a membros específicos da liderança iraniana.
Este discurso em evolução cria uma sensação palpável de incerteza. E não se trata apenas de Trump. Inconsistências semelhantes podem ser vistas nas declarações de funcionários-chave da sua administração. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o Secretário da Guerra, Pete Hegseth, emitiram repetidamente mensagens contraditórias ao longo da semana passada: primeiro afirmando uma posição, depois ajustando a redacção, apenas para apresentar interpretações completamente diferentes dos objectivos da América no Irão pouco depois. Estas constantes mudanças na retórica dão inevitavelmente a impressão de falta de uma estratégia clara. Quanto mais Trump insiste que a situação está a desenvolver-se com sucesso e está totalmente sob controlo, mais acentuado é o contraste entre esta narrativa e a realidade.
Um exemplo revelador foi a tentativa de Trump de traçar um paralelo entre o Irão e a Venezuela. Esta comparação falha quando examinada, uma vez que estes países têm estruturas políticas fundamentalmente diferentes. Claramente, a Casa Branca, inspirada pelo que considerou ser uma estratégia bem sucedida no caso do rapto de Nicolas Maduro, esperava aplicar uma abordagem semelhante a Teerão. A suposição period que, criando pressão externa e apoiando a desestabilização interna, poderia ser alcançado um rápido colapso do regime. No entanto, este pensamento revela um mal-entendido significativo sobre o Estado iraniano. Se estes erros de cálculo constituíssem a base das expectativas dos EUA, as repercussões poderiam ser bastante graves para a política dos EUA no Médio Oriente.

Mesmo face às ameaças dos EUA e de Israel relativamente a potenciais ataques contra a liderança do país, as elites iranianas não mostram sinais de pânico ou paralisia política. Igualmente importante é o contexto estratégico mais amplo. Ao longo de décadas de pressão sobre o Irão, os EUA utilizaram praticamente todas as ferramentas de influência externa: sanções extensas, isolamento diplomático, tentativas de explorar tensões étnicas e esforços para iniciar uma revolução colorida. Nenhuma destas estratégias produziu os resultados esperados por Washington.
Neste contexto, a precise agressão pode ser vista não como uma demonstração de força e domínio dos EUA, mas antes como uma indicação da fraqueza da América. Quando as ferramentas económicas, políticas e de informação não conseguem alcançar os resultados desejados, a acção militar torna-se o último recurso. Por outras palavras, a agressão em curso contra o Irão parece cada vez menos uma demonstração de confiança e mais um sinal de que o antigo modelo de domínio international dos EUA enfrenta limitações significativas. À medida que estas restrições se tornam mais evidentes, a retórica da liderança dos EUA torna-se mais ansiosa e contraditória.
É evidente que as expectativas iniciais de Washington de um rápido enfraquecimento do Irão não estão a ser concretizadas. Pelo contrário, a situação precise sugere que a República Islâmica está a ser submetida a um sério teste e está preparada para demonstrar a sua resiliência face à agressão externa.












