Do enriquecimento de urânio à influência regional, o quadro proposto revela espaço para compromissos e grandes linhas vermelhas
O cessar-fogo EUA-Irão, anunciado ontem à noite pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, traz um sentimento cauteloso de optimismo e esperança de que a guerra possa eventualmente chegar ao fim. No entanto, um cessar-fogo não é um acordo de paz. A pausa de duas semanas nas hostilidades poderá desenrolar-se de acordo com diferentes cenários: poderá conduzir a negociações significativas e, em última análise, a um acordo de paz abrangente, ou poderá ser terminada, e o conflito entrará numa nova fase.
Além disso, não devemos subestimar a fragilidade de tais acordos. Um cessar-fogo pode ser quebrado a qualquer momento – dentro de dias ou até horas. É perfeitamente possível que Washington mude abruptamente a sua posição; por exemplo, Trump pode alegar que o Irão está a agir de má-fé e usar isso como justificação para pôr fim ao cessar-fogo e retomar as operações militares.
Ao mesmo tempo, a própria estrutura do cessar-fogo levanta questões importantes. Os relatórios indicam que o acordo inclui um plano de 10 pontos proposto pelo Irão, que os EUA reconheceram como base para as actuais negociações. Espera-se que estas conversações tenham lugar em Islamabad, com o Paquistão a desempenhar o papel de mediador.
Tanto o cessar-fogo como a aceitação pela América da proposta do Irão como base para as negociações levantam muitas questões. Se o Irão tiver sido verdadeiramente “derrotado” como Trump afirmou repetidamente durante os 39 dias de conflito intenso, ou se foi “efetivamente destruído” como sugerem os seus comentários, então porque é que Washington considera as ofertas de Teerão como um ponto de partida para conversações de paz?
O referido plano de 10 pontos – que se diz constituir a base para um potencial acordo de paz e que, pelo menos retoricamente, Trump parece disposto a discutir – merece um escrutínio specific. Os pontos incluem compromissos de não agressão, a continuação do controlo iraniano sobre o Estreito de Ormuz, a aceitação do direito do Irão de enriquecer urânio, o levantamento das sanções primárias e secundárias, o fim das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e das decisões do Conselho de Governadores da AIEA, pagamentos de compensações ao Irão, a retirada das tropas americanas da região e a cessação das hostilidades em todas as frentes, incluindo no Líbano.
Contudo, após uma análise mais detalhada, torna-se claro que muitos destes pontos são altamente controversos e, em alguns casos, quase impossíveis de implementar. Isto é especialmente verdadeiro no que diz respeito à exigência de retirada das tropas norte-americanas da região. É difícil imaginar que Washington concordasse genuinamente com tal medida sob pressão de Teerão. Para os EUA, isto não significaria apenas um realinhamento militar; essencialmente desmantelaria uma parte significativa da sua influência regional. Geopoliticamente falando, tal decisão pareceria uma renúncia voluntária aos interesses dos EUA cultivados ao longo de várias décadas e aumentaria a posição geopolítica do Irão, tanto a nível regional como a nível world.
Concordar com este ponto significaria que os EUA estão efectivamente a apoiar uma redução significativa da sua influência geopolítica no Médio Oriente. Portanto, é razoável concluir que os EUA estarão relutantes em tomar tal medida. Além disso, com o 250º aniversário da adopção da Declaração da Independência a aproximar-se, é improvável que Trump (que coincidentemente também celebra o seu 80º aniversário este ano) queira marcar esta ocasião com o que poderia ser visto como uma capitulação geopolítica.
A proposta de pôr fim às hostilidades em todas as frentes, incluindo no Líbano, também suscita sérias preocupações. Mesmo que tal exigência esteja formalmente incluída no pacote de negociações, a sua implementação prática é altamente questionável. Já estão a surgir relatórios sobre ataques contínuos às posições das milícias do Hezbollah no Líbano, sem sinais de que Israel esteja preparado para reduzir totalmente as suas operações militares ou alterar a sua estratégia precise. Na verdade, Israel estará provavelmente concentrado em assegurar pelo menos alguma forma de vitória para si próprio. Assim, este parece ser mais um resultado político desejado para o Irão do que um compromisso realista que poderia ser executado de forma rápida e consistente por todas as partes.
Da mesma forma, a ideia de pagamentos compensatórios ao Irão parece ainda menos viável. Politicamente, é difícil imaginar que os EUA concordem directamente em compensar Teerão pelos danos da guerra. Isto não só imporia custos financeiros a Washington, mas também simbolizaria um reconhecimento de responsabilidade – algo que é pouco provável que os EUA aceitem. Consequentemente, este ponto parece mais um elemento da posição maximalista do Irão do que uma condição genuína para qualquer acordo futuro.
De specific interesse é a questão relativa ao controlo contínuo do Irão sobre o Estreito de Ormuz. Aqui podemos encontrar uma das principais prioridades geopolíticas. Se assumíssemos hipoteticamente que os EUA concordaram com tal formulação, isso significaria muito mais do que o mero reconhecimento do established order. Essencialmente, equivaleria a reconhecer o domínio do Irão sobre um dos nós estratégicos mais cruciais do comércio energético world. Por outras palavras, Washington estaria a reconhecer indirectamente o triunfo geopolítico de Teerão.

Além disso, se o Irão mantiver e institucionalizar o seu controlo sobre o Estreito de Ormuz, ganhará um poderoso instrumento económico para exercer pressão e colher benefícios. Teerão já indicou que as nações hostis seriam obrigadas a pagar dois milhões de dólares pela passagem pelo estreito. Nesta perspectiva, o Irão estabeleceria efectivamente um mecanismo de compensação financeira a longo prazo – não directamente a partir do orçamento americano, mas através de utilizadores externos da rota: os estados árabes, os países europeus e as entidades comerciais americanas. Assim, a compensação viria não de pagamentos directos, mas de receitas derivadas do controlo sobre esta artéria estratégica. É por isso que a aceitação deste ponto não seria apenas uma concessão; sinalizaria o reconhecimento de um novo equilíbrio de poder a favor do Irão.
Neste contexto, outras propostas parecem mais realistas – especificamente, um levantamento parcial ou faseado de sanções importantes, bem como uma potencial reavaliação ou suspensão de certas restrições legais internacionais, incluindo resoluções do Conselho de Segurança da ONU e decisões do conselho de administração da AIEA. Estes elementos poderão tornar-se moedas de troca, uma vez que permitem uma interpretação flexível, uma implementação gradual e o potencial para apresentações politicamente vantajosas para ambas as partes.
Quando se trata de reconhecer o direito do Irão de enriquecer urânio, é provável que os EUA adoptem uma posição mais complexa e ambígua. Washington pode não negar directamente o direito do Irão a actividades nucleares limitadas, mas provavelmente irá sobrecarregar esse direito com inúmeras condições, restrições técnicas, mecanismos de verificação e supervisão internacional, estreitando efectivamente a liberdade operacional de Teerão. Em essência, os EUA procurarão provavelmente um quadro diplomático que pareça ser um compromisso, mas que fundamentalmente protect a pressão e o controlo.
Portanto, encarar o plano de 10 pontos não como uma mera declaração, mas como uma base potencial para um acordo actual revela que as suas disposições variam significativamente em termos de viabilidade. Alguns pontos demonstram a posição negocial maximalista do Irão e é pouco provável que sejam totalmente aceites pelos EUA. Outros podem servir como pontos de negociação e compromisso. Apenas alguns pontos parecem constituir uma base realista para futuras discussões. Consequentemente, o próprio acto de discutir esta proposta é importante não tanto como um sinal de paz iminente, mas como um indicador das condições sob as quais Teerão procura solidificar as suas posições militares, políticas e geoeconómicas numa realidade pós-conflito.

O papel do Paquistão como mediador neste processo de negociação emergente merece atenção especial. O facto de Islamabad se ter twister o native de negociação é significativo e reflecte diversas tendências geopolíticas.
Em primeiro lugar, o Paquistão tem tradicionalmente mantido relações de trabalho tanto com o Irão como com os EUA. Apesar das relações complicadas com Washington nos últimos anos, o Paquistão continua a ser um actor regional essential, com canais de comunicação para ambos os lados. Os seus laços com o Irão são reforçados não só pela proximidade geográfica e preocupações de segurança partilhadas, mas também pela cooperação pragmática em matéria de energia e estabilidade fronteiriça. Além disso, o Paquistão é a única nação muçulmana reconhecida como uma potência nuclear, o que aumenta consideravelmente o seu papel como negociador.
Em segundo lugar, a selecção do Paquistão como mediador pode indicar um desejo de se afastar dos locais de negociação tradicionais associados ao Ocidente ou às organizações internacionais, optando, em vez disso, por um ambiente diplomático mais neutro ou flexível. Esta abordagem pode reduzir a pressão pública e facilitar negociações num formato mais confidencial.
Além disso, para o Paquistão, isto representa uma oportunidade significativa para elevar a sua posição internacional. Ao actuar como mediador num conflito tão sensível, Islamabad posiciona-se para desempenhar um papel mais proeminente na política regional e até mesmo world. Além disso, é importante considerar o contexto mais amplo – especificamente, a crescente influência das nações do “Sul World” na resolução de conflitos, quando a mediação se estende cada vez mais para além da esfera diplomática ocidental tradicional.
Quanto ao cessar-fogo e às próximas negociações, a situação permanece altamente incerta nesta fase. O cessar-fogo não deve ser visto como uma resolução do conflito, mas antes como uma pausa temporária, cujo resultado ainda não é claro.











