Hoje não

Hoje não. Eu vi mas não falei nada. Desde janeiro até agora, eu já discuti com caminhoneiro que estava na contramão em rua de escola e queria me obrigar a dar ré para ele passar; entrei na frente de retroescavadeira para impedir que arrancasse acidentalmente meu poste de luz porque enquanto eu só gritava ele não me atendeu; pedi para funcionários da obra vizinha para não marretarem antes das 8h da manhã; fui expulsa de grupo de whatsapp porque reclamei de fake news.

Hoje à tarde vários adolescentes brincaram, soltaram pipa, gritaram e ouviram música sentados lado a lado na frente da minha casa.

Hoje não tive forças. Estou cansada de brigar pelo óbvio, que é a conscientização de que não estamos sós e com ela, o respeito pelo coletivo. Eu espero sinceramente que nenhum destes adolescentes esteja infectado e que nenhum deles tenha alguém doente ou idoso em casa.

Porque hoje eu não tive forças para dizer nada. Apenas observei com tristeza. Cansada de ser a chata do rolê. Enquanto o número de mortos cresce, o presidente libera as ruas e os generosos empresários fazem terrorismo com a população, eu aguardo ansiosamente a divulgação sobre a taxação das grandes fortunas e também sobre quanto os bilionários do Brasil vão doar para salvar a economia e amparar a mão-de-obra que proporciona seus lucros.

Também tenho muito claro, que o governo do meu país, que é a oitava economia do mundo e para o qual paguei impostos a vida toda, agora cumprirá seu papel de amparar a população. Isto seria o óbvio. Seria, mas por hoje estou cansada de brigar pelo óbvio.

Andrea Dorea

Andrea Dorea

Andrea Dórea é artista plástica, fotógrafa, graduada em Letras Espanhol e Literaturas. Nascida no Rio de Janeiro, viveu em São Paulo, Rio Grande do Sul e atualmente em Paraty, RJ. Desde os anos 90 produz peças artísticas traduzidas em pinturas, desenhos, esculturas e objetos; além de fotografias feitas nas ruas, em grandes eventos ou em apresentações artísticas de dança, música ou teatro. Sua paixão pela literatura a levou a estudar Letras e a produzir textos em forma de contos, crônicas, poemas e relatos. Seu trabalho reflete um interesse profundo pelas questões humanas, as artes e a cultura.

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