Com o retorno da Copa Libertadores em 2026, até mesmo os aficionados do futebol brasileiro podem ficar surpresos ao lerem a lista de occasions. Lá entre os gigantes do futebol sul-americano está o Mirassol. E a história deles continua surpreendente.
Ao lado de Flamengo e Fluminense, Corinthians e Palmeiras, aqui está este pequeno clube da periferia de São Paulo. O Mirassol terminou em quarto lugar no Campeonato Brasileiro, apesar de ser o favorito para a queda, um time recém-promovido e com o menor orçamento disponível.
“Isto é o Wrexham sem dinheiro”, diz Fabio Aurelio, antigo jogador do Liverpool, ao tentar colocar isto num contexto britânico. Mas o Wrexham não está na Liga dos Campeões e mesmo nunca esteve tão baixo quanto a sexta divisão como o Mirassol.
Isso foi em 2018. No início desta década, eles ainda estavam na Série D, apenas um pontinho no radar. Mas, apoiados por uma cláusula de venda quando Luiz Araujo trocou São Paulo pelo Lille, eles investiram sabiamente em alguma infraestrutura para ajudar a facilitar sua ascensão nas divisões.
Isso explica como o Mirassol conseguiu se transformar em uma espécie de clube de destino, superando alguns da região de São Paulo, aproveitando o standing da cidade como um dos focos de talentos do futebol mundial. Mas não explica o milagre de Mirassol.
Terminar como o quarto melhor time do Brasil ao ser promovido à primeira divisão pela primeira vez na história? Fazendo isso jogando um dos jogos de futebol mais divertidos do continente? Conseguir isso exigiu a magia do técnico Rafael Guanaes.
Como esse homem que nunca havia conseguido chegar ao mais alto nível conseguiu isso? “Trabalho duro”, diz Guanaes Esportes celestes. “Quando cheguei ao clube, estava muito claro. Tínhamos que ser a equipe com maior índice de trabalho no campeonato. Fiz com que eles soubessem disso.”
Ele explica: “Apesar de sermos um clube pequeno numa cidade pequena, tínhamos a capacidade de praticar um excelente futebol se trabalhássemos arduamente, por isso continuávamos a aumentar os nossos números de GPS. Todas as semanas, ia ao fisioterapeuta para ver os números de intensidade, pois queria que pressionassemos bem alto.”
O afável Guanaes fala de seu amor por Jurgen Klopp e de valorizar a métrica que mostra quantas vezes seu time recupera a bola em cinco segundos. É um aspecto de tudo isso que torna ainda mais extraordinário o que o Mirassol tem feito. Eles atacaram os meninos grandes.
“No início, o principal objetivo period criar a crença de que, se trabalhássemos arduamente como equipa, poderíamos alcançar grandes coisas juntos. O objetivo period construir um ambiente que lhes pudesse dar coragem e confiança para jogar futebol.
“Na nossa fase ofensiva queríamos criar muita movimentação, muitas variações. Apesar de não termos os melhores jogadores, tínhamos essa mentalidade e essa coragem”. Funcionou – e de forma espetacular. “Os jogadores confiaram em tudo o que eu disse”, acrescenta.
Guanaes, 45 anos, é uma figura persuasiva, mas havia poucos motivos para acreditar nele. Seu antecessor havia saído após a promoção para assumir outro cargo na Série B, o que não é exatamente um endosso às perspectivas do clube. Mas o Mirassol viu algo especial em Guanaes.
“Sempre fiz assim, desde meu primeiro clube na última divisão do Campeonato Paulista”, afirma. “Mesmo então, eu dizia aos jogadores para basearem a posse de bola e tentarem controlar o adversário com e sem bola.”
Claro, nunca funcionou assim. “Mas mesmo na última divisão, com jogadores de menor capacidade técnica, acredito que este sistema muito complexo pode funcionar muito bem se trabalharmos juntos como um organismo vivo”, insiste. No Mirassol tudo se encaixou.
Em maio, eles recuperaram de desvantagem para vencer o Corinthians e depois foram para São Paulo e venceram também. Mas foi a vitória sobre o Fluminense, em agosto, que Guanaes aponta como o momento chave. “Foi quando alcançamos o número mágico para manter o time na Série A.”
Se isso parece que ele estava mantendo os pés no chão, nem um pouco. “Nessa altura, estive a conversar com os nossos jogadores e disse-lhes que tínhamos capacidade para conquistar não só a Copa Sul-Americana, mas também a Copa Libertadores, porque estávamos jogando muito bem”.
E acrescenta: “Sempre tentei colocar na cabeça dos jogadores que period possível fazer mais. Depois do Fluminense, até falei para eles que poderíamos ser campeões. Estava falando do título”. Atire para a lua. Mesmo se você errar, você pousará entre as estrelas. Essa é a ideia.
“Estou estudando neurociências. Quero saber como funciona o nosso cérebro”, diz ele. “É uma ferramenta muito poderosa e, como líder, preciso saber a maneira certa de transmitir minhas ideias da maneira que funcione melhor para cada jogador. Por quanto tempo devo falar com eles, por exemplo.”
Talvez ter um treinador que pense diferente ajude. Guanaes também é um sonhador. Suas ambições como treinador começaram muito antes de ele entrar na grama. Ele alcançou o impossível pela primeira vez em seu computador enquanto jogava Soccer Supervisor. “Eu estava viciado”, ele admite.
“A minha carreira de treinador começou no Soccer Supervisor. Quando tinha 15 anos passava horas e horas a tentar construir a equipa, a conhecer os jogadores, as grandes perspectivas para o futuro. Isso deu-me ideias. Estava a preparar-me para ser treinador mesmo sem saber.”
Ele já jogou como Mirassol? Eles nem eram uma opção no jogo naquela época. E além disso, ele ri, ele está mais do que compensando isso agora porque está fazendo isso de verdade. “Minha vida é a maior defesa do Soccer Supervisor que já joguei”, diz ele.
Ele continua um estudante do jogo, citando os nomes de Pep Guardiola, Mikel Arteta e Roberto De Zerbi. Ele também observa o Como de Cesc Fabregas e o Paris Saint-Germain de Luis Enrique em busca de ideias. “Gosto de estudar como os outros occasions jogam, ler sobre o jogo.”
Ele fala em “construir uma forma de jogar, deixar um legado” e talvez um dia chegue a mudança para a Europa. O ditado de que se você consegue sobreviver como técnico no Brasil, então você pode sobreviver em qualquer lugar certamente parece relevante agora, porque o Mirassol teve um início perturbador.
Uma vitória nos primeiros nove jogos da temporada deixou o time na última posição da tabela antes da estreia na Copa Libertadores contra o time argentino do Lanus. Desafiar a gravidade parece ter se twister difícil. Não é só no futebol europeu que a realidade morde.
“Perdemos muitos jogadores”, diz Guanaes. “Neste momento estamos reconstruindo o time porque mudamos muito. Ainda estamos trabalhando para que os novos jogadores conheçam o Mirassol e a forma como jogamos. É um desafio muito maior do que no ano passado”.
Ele é honesto o suficiente para admitir que não estar na competição continental deu-lhes uma vantagem. “Tivemos menos jogos em comparação com, digamos, Palmeiras e Flamengo. Então, toda semana usávamos esse tempo disponível para criar nossos elaborados planos táticos e estratégicos”.
A preocupação é que tudo isso seja demais nesta segunda temporada. “A vida mudou. Os holofotes são muito maiores”, reconhece. Mas por enquanto todos estão na mesma página. “É um casamento. Os diretores aqui pensam tanto no ser humano quanto no jogador”.
Hora de outra grande história? Uma campanha de sucesso na Copa Libertadores não está descartada pelo Guanaes. “Acredito que a equipe está preparada. Muito mais do que estávamos no início do ano”. Talvez ainda haja outro capítulo do milagre de Mirassol.











