Dona Geisa: ela fez história na Educação de Paraty

Prepare-se, aqui tem textão! Mas reserve um tempo e mergulhe nele para  conhecer a história de uma das mulheres mais fortes e queridas de Paraty. Sem medo de desafios, essa avó de 9 netos e bisavó de 15 bisnetos foi a criadora da bandeira da cidade e professora de centenas de paratienses.

Figura querida na cidade, Geisa Panaro Ramiro, 85 anos, é paratiense de coração. Coração que parece transbordar nos olhos brilhantes de orgulho e contentamento, enquanto ela vai me contando como Paraty passou a fazer parte da sua vida e como, com seu jeito corajoso de ser, ela foi fazendo a diferença na história de Paraty.

Tudo começou na sua juventude. Eram os anos 1950 e a cidade pacata ainda era isolada na geografia – sem a Rio-Santos, sem pousadas nem turismo – mas viva e rica na sua história, entre as tradições e a religiosidade da cultura caiçara.

Geisa chegou aqui aos 18 anos, vinda de outra cidade fluminense onde nasceu, Santo Antonio de Pádua, depois de ter feito concurso para o Magistério. “Cheguei aqui no dia 18 de março de 1953 para assumir meu cargo de professora numa escola da costeira, a Escola Reunida do Engenho d´Água, hoje a escola estadual municipalizada João Apolônio dos Santos Pádua, na praia do Baré. Não cheguei sozinha, viemos em cinco normalistas. Paraty, naquele tempo, só tinha professores leigos, especialmente pelas dificuldades de acesso, já que só se chegava aqui por lancha, via Mangaratiba, numa travessia de oito horas. E chegamos com aquela garra toda da juventude, movidas pelo entusiasmo de sermos professoras, o que, naquela época, era motivo de muito orgulho na vida de uma mulher. Desde o começo tudo foi dando muito certo, eu morava na própria escola, no Engenho d´Água, de segunda a sexta-feira. Nos finais de semana vinha para a cidade, instalada na Casa dos Professores, onde hoje funciona o Detran”, lembra Geisa.

Naquele tempo, Paraty tinha 24 escolas, todas estaduais. Entre elas o Cembra, então Grupo Escolar Samuel Costa, onde Geisa trabalhou como professora, auxiliar de direção e diretora, de 1956 a 1965. “Depois fui para a Inspetoria de Ensino como supervisora de merenda escolar”, lembra ela, professora exemplar de muitos paratienses famosos e não-famosos. “Naquela época não tinha isso, todos os alunos que tive eram famosos pra mim, entre eles o Carlão e sua família toda, o professor Felinho, a Margarida Torres, a Maria Inês, a Patrícia Costa…”

Além da realização como professora, a vida em Paraty lhe reservou muitas outras alegrias. Não faltaram amigos nem festas e bailes inesquecíveis, como os dos carnavais do Paratiense Atlético Clube, no casarão onde hoje é a Casa da Cultura. E nem o grande amor, João Ramiro, com quem se casou em 1957. Com ele vieram os quatro filhos, Elina, já falecida, Sandro, Ramirinho e Evandro. Mesmo enquanto a família crescia, ela nunca parou de trabalhar, tirava de letra a dupla jornada. “Feminista, eu? – risos -, ah, me considero, sim, guerreira, enfrentei muitos desafios. Só que naquela época não tinha isso de feminismo, de levantar bandeira. A luta era na prática, no trabalho diário pra gente conquistar o que queria. E não posso dizer que fiz tudo sozinha, tinha uma equipe de trabalho maravilhosa – Marita, Margarida, Marina, Neide, Aricléia, Benedita de Lurdes, Rita, Julia, Fany, professoras sempre dispostas a tudo, mulheres respeitadas, representantes do povo paratiense e da classe de professores!”

Eterna apaixonada pela Educação, aos 40 anos Geisa formou-se em Pedagogia, enfrentando semanalmente a estrada para a faculdade, em Barra Mansa. E mesmo depois de aposentada não parou de se dedicar ao ensino. Foi monitora do Projeto Crescer, primeiro curso de Educação à Distância aprovado pelo Conselho Federal de Educação, pelo qual formou sete turmas durante dez anos. Ela tem gosto em contar: ‘‘Para os encontros pedagógicos realizados no Cembra uma vez por mês, vinham alunos de toda parte, da Bahia, de São Paulo, de Brasília… Era quando se distribuíam os módulos que iam ser avaliados no mês seguinte. Foi a partir daí que aconteceu em Paraty a implantação da 5ª. série, dando oportunidade de trabalho aos professores que frequentavam o curso e servindo de estímulo para que esses professores completassem sua formação, ingressando no ensino superior.”

Ao comparar os feitos do passado ao cenário da Educação de hoje, Geisa não gosta do que está vendo. “Lamento a decadência do ensino, lamento ver os professores tão mal-remunerados e o pouco respeito e interesse dos alunos, devido à falta de estrutura familiar.”

Mulher de fibra, Geisa afirma que não levantou bandeiras. No entanto, foi ela a idealizadora da bandeira de Paraty – um de seus gestos de amor pela cidade.  “Foi o meu agradecimento a Paraty por ter me recebido e pela forma como sou tratada até hoje por todos aqui. O município não tinha uma bandeira, então fiz o desenho, idealizei o vermelho, azul e branco, as cores do Patrimônio, e mandei o projeto para a Câmara dos Vereadores. Foi aprovado por unanimidade e a bandeira foi apresentada ao público durante o desfile comemorativo das escolas, em 7 de setembro de 1967, nos 300 anos de emancipação política de Paraty.”

Foto: Gustavo Stephan

85 anos? Nem parece! Mestra também na vida, Geisa segue leve mas exigente nos bons tratos da pousada familiar que tem em casa desde 1984. São famosos e obrigatórios na família seus almoços de domingo, que ela mesma costuma preparar. Tive a chance de fazer essa entrevista saboreando uma de suas especialidades, doce de goiaba na colher, e ouvir  dela, ao final, as palavras que ela repete todos os dias quando acorda, em agradecimento à felicidade que tem na vida: saúde, força, fé, coragem, sabedoria, determinação, esperança e muito amor.

 

 

 

Claudia Ferraz

Claudia Ferraz

Claudia Ferraz, jornalista interessada em histórias de vida e de lugares, com mania de acreditar que tudo tudo vai dar pé, graças à arte, à cultura e à educação.