Corpos Negros na Dança

“Quando entro no palco, me sinto linda, me sinto maravilhosa, eu me sinto a negra mais gostosa, me sinto a mulher mais sedutora.”

Disse a Mulher do fim do mundo, a ilustre cantora Elza Soares, uma das mais belezas vozes negra desse país.
O negritude é potência e não carência, ouvi essa frase do Escritor de Favelas, Jessé Andarilho.
Além de potência, negro também é força e é poder transformador.
O corpo negro não é um corpo único, individual, mas sim um corpo participativo, humanitário. Um corpo negro dançando é uma mensagem política, cultural, social e artística; os corpos em movimento trazem uma carga expressiva imensa.
Um corpo negro é cheio de lutas e resistências, em 1945, Mercedes Baptista iniciou sua carreira no ballet clássico, foi a primeira negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Baptista foi a responsável pela criação do balé afro-brasileiro, inspirado nos terreiros de candomblé, elaborando uma codificação e vocabulário próprio para essas danças. O seu Ballet Folclórico Mercedes Baptista foi responsável pela consolidação da dança moderna do Brasil.
Bailarinos negros têm mais trabalho fora do Brasil, o preconceito racial é velado, além de ser uma mentalidade antiga e preconceituosa, tem algo de errado no Brasil, não acha?
Fora do país, temos a Dance Theatre of Harlem, primeira companhia negra de balé, e também temos as grandes bailarinas, Precious Adams bailarina do English National Ballet que há cinco anos foi personagem de uma matéria do “The Moscow Times” que dizia que a cor de sua pele a impedia de conquistar melhores papéis, e aliás, quantas Auroras Negras no Ballet você já viu?!
Outra grande bailarina com carreira internacional é a Michaela DePrince, orfã de pais, foi adotada por uma família norte-americana que encorajou seu amor pelo balé, hoje, ela dança na Dutch National Ballet, uma das melhores companhias de ballet do mundo.

Faz diferença ver corpo negro na dança, representatividade importa sim pois o ballet é uma arte muito aristocrática, começou assim e se manteve dessa forma. Sempre existiu a ideia de que as negras não não tinham o corpo ideal de uma bailarina, nem a mesma aptidão para os movimentos de precisão e leveza.

Lázaro Ramos diz em seu livro “Na minha pele” que: “Seu lugar é aquele em que você sonha estar.”
E falando sobre o corpo negro na dança, nada mais justo que trazer à luz aquela que abrilhanta a cidade de Paraty com sua dança, e sobre sonhos,  ela nunca pensou em ser bailarina, queria ser aeromoça mas seus caminhos à apresentou ao que hoje é a maior paixão de sua vida, a dança.

Paraty é uma maré acolhedora, e a maioria das pessoas escolhem a cidade por ofertar uma melhor qualidade de vida, então, há 20 anos a maré da nossa Veneza Brasileira, conhecida como Paraty, trouxe uma moradora ilustre que já é Paratyense de coração e que é uma referência na cidade, ela é:
Tharcylla Batista e por incrível que pareça ela possui o mesmo sobrenome da primeira bailarina negra do Theatro Municipal, a Mercedes BAPTISTA e possuem a mesma paixão pela dança juntamente de um admirável talento.
Tharcylla tem 26 anos, natural de Bonsucesso no Rio de Janeiro, negra, mãe, professora, bailarina profissional e graduada em Ed.Física.
Cursou e formou-se em magistério no colégio Estadual CEMBRA e iniciou seus estudos na dança aos 12 anos no Espaço Surya de Dança, coordenado pelo Psicologo Luiz Eduardo Fares. Ao passar dos anos o projeto Espaço Surya de Dança cresceu e tornou-se o projeto social Educar pela Dança da Cia Dança & Arte Paraty.
Tharcylla mais conhecida como “Tia Tharcylla ou Tia Thata” teve toda sua formação de dança vinda do projeto social, o qual atuou como bailarina, onde teve seu primeiro emprego como auxiliar de uma professora de dança, aos 14 anos, e logo assumindo uma turma de ballet como professora, ficou no projeto de 2008 à 2016 e através do projeto pode ter bolsas de estudos para fazer cursos profissionalizantes e ter toda a base para poder tirar o DRT e ser associada ao Sindicato dos Profissionais da Dança do Rio de Janeiro.
Mesmo tendo engravidado na adolescência, isso não a desmotivou, sempre com o apoio da família continuou lutando para alcançar seus sonhos e dar vôos mais altos, sendo seu filho a sua maior motivação.
Desde pequena sempre gostou de ser ativa, então, já adulta resolveu fazer faculdade, hoje, graduada em Ed. Física.
Para a Tharcylla a dança não é qualquer coisa e nunca será, a dança pra ela é tudo, é sentir, é contar a história com o seu corpo e além de tudo é amar o que faz. Ressalta que “ama ser mulher, ama ser negra, ama sua força e só tem essa força por causa das mulheres negras que vieram antes dela, sua Avó, sua Mãe e sua Irmã.”
O corpo negro na dança para nossa ilustre bailarina é o corpo de mais importância e que traz muitas histórias.
E o recado que ela nos deixa é: “Olho para traz, olho para todos os caminhos que já percorri e olho sempre para frente com muita força, muita garra e muita determinação. Seja forte, seja determinado, seja sonhador, se você já tem isso você já conquistou tudo e vai conquistar muito mais.”

Essa mulher negra empoderada, professora, bailarina, graduada em Ed. Física, periférica, paratyense de coração e mãe na adolescência nos mostra que todo sonho é possível e basta muita força de vontade para se chegar no lugar que almeja, esse lugar é seu, o lugar é nosso, todos nós podemos.
Essa mulher cheia de empoderamento torna-se um ícone Paratyense e não há quem não conheça Tharcylla Batista na cidade de Paraty, hoje, aos 26 anos, ela possui sua própria escola de dança que se chama: Tia Tharcylla Ballet que completará 4 anos de existência esse ano.

Thalia Oliveira

Thalia Oliveira

Thalía Oliveira, 22 anos, Caiçara natural de Paraty. Estudante de Direito da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, Pesquisadora da Segurança Pública do Rio de Janeiro, Diplomada Amiga do 5° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro pelo Ten Cel André Luiz Caetano Gomes e Estagiária na Delegacia de Policial Civil da Baixada no Rio de Janeiro. Bailarina, Atriz e Fotógrafa.

Um comentário em “Corpos Negros na Dança

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    22 de maio de 2020 em 18:52
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    Linda matéria e muito merecida…uma pessoa e profissional impar….amo demais…sou ate suspeito…parabéns pelo lindo texto e tema…sucesso sempre.

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