conto “A APARIÇÃO DE JUPIÁ”

Ao publicar o livro “A Lenda da Velha Barrageira”, história que fala sobre a lenda urbana mais conhecida de Ilha Solteira, minha cidade natal, acho que virei uma espécie de ‘expert’ na tal. Todo mundo quer me contar um episódio que envolve a lenda. Quando me encontram em algum lugar (fila do banco, boteco, feira, hospital…), logo têm um “causo” sobre algum fato sobrenatural. E agora, até mesmo histórias de outros locais. Como é o caso desta que vou lhes contar.

Um senhor, que já trabalhou na usina de Jupiá, me contou isso na mesa de um bar em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, e, confesso, essa história é ainda mais perturbadora que a da Velha Barrageira. Destaque para a palavra ‘perturbadora’ que eu acho… perturbadora.

Após um trago de Cachaça Ouro, os olhos do velhote assumiram um ar misterioso e sobrecarregado de estranheza… então ele me disse: “Meu jovem contador de histórias, me diga… você já viu a tal Véia Barragêra, que tu conta no teu livro?” – eu respondi que não, mas que as pessoas gostavam de ouvir que sim… então… sim! E ele continuou… “Pois tenho aqui uma história mais assustadora que a sua! Porque ela é verdadeira!” Já interessado, pedi que ele continuasse.

Conta-se que na construção da usina de Jupiá, a segunda maior usina hidrelétrica do Brasil, abaixo apenas de Itaipu, na década de sessenta, era comum a contratação de trabalhadores, sem registro algum, especialmente para os serviços braçais. Era uma forma de agilizar o trabalho e tocar o empreendimento pra frente. Eles eram pagos por dia de trabalho e vinham de todos os cantos do país, para a realização da grande obra.

Dentre esses homens, segundo o relato do velho no bar, muitos eram de origem desconhecida e alguns deles, até mesmo, foragidos da Justiça.

Nas corriqueiras brigas e discussões entre eles, até mesmo por acertos de contas do passado, acabavam por assassinar uns aos outros. Para evitar ainda mais problemas com a polícia, os próprios trabalhadores ocultavam os corpos dentro da enorme massa de concreto das estruturas da usina.

Dizem que no interior das paredes maciças de Jupiá, há inúmeros corpos de homens, que morreram brutalmente nessas ocasiões.

A diretoria, se é que tinha conhecimento, acabava fazendo vista grossa, já que o importava era a conclusão do gigantesco projeto.

Certo dia, uma senhora de aparência muito simples apareceu no canteiro de obras carregando uma tigela de marmita enrolada num pano de prato florido, procurando pelo seu filho, João Carcará.

O encarregado responsável, já supondo que fim levou o pobre, tratou de dar uma desculpa qualquer para a velhinha: “O João não veio hoje, não. E nem ontem. Deve ter abandonado o serviço. Mas enfim… quem sabe amanhã?” – disse para ganhar tempo e tentar apurar os fatos.

No dia seguinte, a confirmação. João Carcará havia sido morto e jogado no concreto do paredão de Jupiá. Mas quem disse que o homem tinha coragem de contar a dura verdade àquela humilde senhora? E todos os dias, sem falhar, lá estava ela… com a tigela enrolada no pano de prato florido, perguntando do filho.

E assim foi… durante anos, até que a velhinha simplesmente não mais apareceu.

O tempo passou e a usina hidrelétrica de Jupiá segue operando a todo vapor, gerando energia para várias cidades e dessa história, dentre outras, ninguém já nem se lembra mais.

No entanto, contam os vigias da madrugada que, no andar de baixo, perto das comportas e do enorme paredão, onde ninguém, exceto os operários, têm acesso, de quando em vez, caminhando entre os corredores escuros, vê-se uma humilde senhora, carregando uma tigela enrolada num pano de prato florido, procurando pelo filho.

Hugo Brasarock

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Hugo Brasarock

Hugo Brasarock é um músico premiado em alguns festivais de MPB Brasil afora, compositor, poeta e escritor, é autor do livro A Lenda da Velha Barrageira, que conta a história de uma lenda urbana de Ilha Solteira, sua cidade natal. Professor de Inglês e de Literatura, atualmente leciona em dois colégios de Paraty.

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