“Man on Hearth”, com estreia quinta-feira na Netflix, é a terceira adaptação do romance homônimo de AJ Quinnell de 1980 e mantém a tradição de ambientar a ação em um novo lugar, com uma nova história. Seguindo os filmes “Man on Hearth” (2004, estrelado por Denzel Washington, ambientado na Cidade do México) e “Man on Hearth” (1987, estrelado por Scott Glenn, ambientado na Itália), é estrelado por Yahya Abdul-Mateen II, se passa no Rio de Janeiro e tem pouco a ver com as versões anteriores, além de unir um agente de segurança ferido e uma jovem em perigo.
Abdul-Mateen interpreta John Creasy, um agente da CIA que fracassou depois que uma operação que ele supervisionava remotamente deu errado, deixando-o com um caso de TEPT e um problema com bebida. Quatro anos depois, seu velho amigo Paul Rayburn (Bobby Cannavale) chega para resgatá-lo de si mesmo, levando-o para o Rio, onde Rayburn está trabalhando para uma empresa de segurança em um canteiro de obras – há uma eleição presidencial chegando e protestos são temidos. Não quero entrar em eventos que me surpreenderam profundamente, mas um suposto ato de terrorismo impulsiona Creasy, junto com a filha de 16 anos de Rayburn, Poe (Billie Boullet), a um jogo para celular de Quem você pode confiar, enquanto Creasy busca respostas e vingança. (Seu toque não é leve.)
Grande parte da série se passa em uma favela carioca, o tipo de favela que os amantes do cinema de arte conhecerão em “Orfeu Negro” e “Cidade dos Homens” (também uma série de TV brasileira de 2002), onde Creasy e Poe acabam pela graça de Valéria Melo (Alice Braga), uma motorista que Creasy contrata e que lhes oferece abrigo daqueles que tentam matá-los.
“Quando você dirige um carro, você não apenas conhece muitas pessoas diferentes”, diz ela, “você aprende a realmente vê-las”.
“O que mais você vê?” pergunta Creasy.
“Alguém que precisa de um amigo.”
John Creasy (Yahya Abdul-Mateen II) faz de tudo para proteger Poe Rayburn (Billie Boullet), a filha adolescente de seu velho amigo Paul.
(Juan Rosas/Netflix)
Aos poucos uma equipe se reúne. (Eu adoro esse recurso narrativo.) Junto com Valéria, uma voz de sabedoria, há Livro (Jefferson Baptista), uma criança sensível das ruas, e alguém da sua idade para que Poe não se importe com os adultos; Vico (Iago Xavier), integrante de gangue protetor de Livro; e Ivan (Alex Ozerov-Meyer), um garoto rico ex-associado de Creasy com gosto pela aventura – uma Força Missionária Impossível advert hoc que realizará algumas travessuras implausivelmente complicadas e, ouso dizer, uma família. De volta a Langley, Tappan (Scoot McNairy) e Moncrief (Paul Ben-Victor) monitoram a ação no Brasil. (Aplicam-se advertências sobre confiança.)
Reviravoltas incluídas, “Man on Hearth”, criado por Kyle Killen, é um entretenimento de ação direto, um drama de vingança tradicional com mocinhos e bandidos geralmente bem definidos, uma vez que você os resolva. É o tipo de programa que deveria funcionar bem globalmente (deixando de lado os personagens americanos, tem pouco a ver com a América), não tanto entretenimento de carne e batatas, mas carne e batatas. Em seu colorido descolado, o cenário eleva a ação – Alejandro Martínez (“Home of the Dragon”) é o diretor de fotografia e obtém ótimos resultados onde quer que aponte sua câmera – da qual há bastante, mais brutal do que baléica e muitas vezes nem um pouco perturbadora. (Mais do que “não um pouco perturbadores” são algumas cenas de tortura indevidamente prolongadas.) Da mesma forma, o elenco extrai um pouco de poesia do diálogo prosaico, muitas vezes aforístico.
Abdul-Mateen, que estrelou a série da Marvel “Homem Maravilha” (na qual period doce e engraçado) e como Doutor Manhattan na série de TV “Watchmen” (na qual period azul), é o que os médicos chamam de um esplêndido espécime físico, além de um ótimo ator. Aqui ele não é engraçado nem triste – doce, até certo ponto. “Acho que pode ser a primeira vez que vejo você sorrir”, Poe diz a ele aos 14 minutos do segundo episódio, até o momento em que ele tem estado consistentemente impassível. (Eles citaram simultaneamente a máxima não metafórica de seu pai: “Você aprende a jogar xadrez, aprende a jogar a vida”.)
É um spoiler dizer que ele vai amolecer no last? Que teremos um vislumbre de um Creasy mais suave e saudável? Como Poe, o excelente Boullet – que foi Anne Frank no Disney+ – tem sentimentos suficientes pelos dois. Venha para o soco, fique para a cura.












