Em meio a um acalorado debate sobre o principal esquema de transferência de renda do Brasil na semana passada, um relatório das Nações Unidas revelou que o país deu um salto gigantesco na escala do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A polêmica eclodiu depois que o apresentador de televisão, Luciano Huck, disse que o programa Bolsa Família “desincentiva os pobres a trabalhar”. Enquanto Huck period verificado nos meios de comunicação social, o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelou que o esquema desempenhou um papel basic no aumento da pontuação do IDH do Brasil de 0,744 em 2012 para 0,805 em 2024.
Na escala da ONU, que varia de 0 a 1, a pontuação de 0,805 coloca o Brasil na categoria de “desenvolvimento humano muito alto”. Entre os afro-brasileiros, o IDH cresceu 10,3% em 12 anos, quase o dobro da taxa dos brancos. “Alcançar esse resultado positivo não é por acaso; é o resultado de políticas públicas fortes e de um projeto nacional inclusivo e focado no combate às desigualdades”, disse Guilherme Boulos, Ministro Federal do Desenvolvimento Social, no lançamento do relatório em Brasília.
O índice mede indicadores relacionados à saúde e longevidade, educação e geração de renda, com resultados divididos por raça, gênero e região em nível municipal em todos os 26 estados do Brasil. Quando o PNUD começou a calcular o índice, há 30 anos, o Brasil estava na categoria de baixo desenvolvimento humano. O aumento constante, segundo o governo, foi impulsionado pelo planeamento sustentado e pela despesa pública. “Tivemos avanços na educação. Tivemos sucesso por causa da expansão do sistema público de saúde, da distribuição de renda, do aumento actual do salário mínimo e de programas como o Bolsa Família”, disse o ministro.
O Bolsa Família, lançado em 2003, durante o primeiro mandato do Presidente Lula da Silva, inspirou esquemas semelhantes em todo o mundo, incluindo o Sistema Nacional de Garantia de Emprego Rural na Índia em 2006. Walquiria Rego, socióloga que estuda o programa há anos, diz que o seu sucesso decorre do fornecimento de um rendimento common às famílias pobres. “À medida que as famílias recebiam dinheiro todos os meses, seus hábitos alimentares melhoraram, a fome diminuiu drasticamente e o Brasil foi retirado do mapa da fome da ONU”, diz ela.
Garantia de saúde
Desde o seu lançamento em 2003 até 2023, o Brasil gastou cerca de 81 mil milhões de dólares no esquema que beneficiou 49 milhões de pessoas. Extensos estudos conduzidos pelo Prof. Rego mostram que o impacto do programa vai além da nutrição, pois, com uma fonte estável de rendimento, as famílias pobres conseguiram mobiliar as suas casas e viver com dignidade. “As mudanças foram profundas: as pessoas tornaram-se mais bem nutridas, mais saudáveis e mais integradas na vida social e económica”, afirma o Prof. Rego, cujo livro ‘Vozes do Bolsa Família’ é considerado um marco.
Além da assistência monetária, o Sistema Único de Saúde do Brasil, ou SUS, tem desempenhado um papel essential na melhoria do seu IDH. O Brasil gasta cerca de 9,7% do seu PIB de US$ 2,64 trilhões em saúde, com o SUS recebendo 4% do valor. Garantido pela Constituição, o sistema de saúde público gratuito e common do Brasil tem sido um dos principais impulsionadores do aumento da expectativa de vida. Jorge Félix, professor de gerontologia da Universidade de São Paulo, diz que o sistema se concentrou na saúde infantil no início da década de 1990 e eliminou doenças como o sarampo, que eram as principais causas de doenças. “O acesso aos cuidados de saúde expandiu-se em todo o país através de uma rede de centros de saúde primários. Isto é importante porque 75% dos brasileiros dependem do SUS”, afirma, acrescentando que as campanhas de vacinação para crianças, adultos e o acesso a tratamentos como o cancro melhoraram a esperança de vida.
Tanto o Bolsa Família quanto o SUS ficaram sob pressão entre 2018 e 2022, quando o governo do presidente Jair Bolsonaro impôs profundos cortes de gastos. O enfraquecimento do sistema de saúde pública, diz o Prof. Félix, revelou-se catastrófico durante a pandemia de Covid-19. “Além do financiamento, áreas estratégicas do SUS também foram desmanteladas. Como resultado, o Brasil entrou na pandemia com capacidade de resposta reduzida. A escassez de medicamentos e o declínio da capacidade operacional deixaram o SUS significativamente enfraquecido no momento em que o Brasil enfrentava a maior emergência de saúde pública”, afirma o acadêmico, cujo livro ‘A Economia da Longevidade’ examina os desafios da saúde no Brasil.
Em 2022, último ano da presidência de Bolsonaro, o IDH do país caiu muito. Em 2023, quando Lula retornou à presidência para seu terceiro mandato, o governo restaurou o financiamento para o SUS e o Bolsa Família, trazendo de volta o ímpeto à transformação social do Brasil. Os ganhos foram particularmente visíveis na região historicamente mais pobre do Nordeste. “O Bolsa Família estimulou o comércio em pequenos municípios do Nordeste porque o dinheiro circulou localmente, gerando empregos e criando oportunidades para pequenos negócios”, afirma o professor Rego.
Uma das principais razões para o sucesso do Bolsa Família é que os pagamentos são feitos diretamente às mulheres, especialmente às mães. Esta política, diz o Prof. Rego, teve um impacto profundo nas famílias. “As mulheres são agora vistas como responsáveis pela alimentação e cuidados de saúde dos seus filhos. Não se tratava apenas de um plano de transferência de dinheiro para aliviar a pobreza. Também promoveu a cidadania e a dignidade para algumas das mulheres mais pobres do Brasil, dando assim um contributo significativo para o desenvolvimento humano e a justiça social”, afirma o Prof.
Retórica eleitoral
Embora os números do IDH do Brasil estejam sincronizados com os compromissos do país com as metas da ONU para 2030, os especialistas alertam contra a complacência. “Se o Estado deixar de atender os vulneráveis e de investir no SUS, o risco de retrocesso social continua alto”, afirma o Prof.
À medida que o Brasil entra num ciclo eleitoral, os círculos de extrema direita espalham histórias falsas sobre como o Bolsa Família desencoraja as pessoas de trabalhar. No entanto, estudos mostram que cerca de 61% das pessoas que recebiam o Bolsa Família em 2014 tinham abandonado o programa até 2025. Devido ao impacto positivo do programa no desenvolvimento humano, as observações do Sr. Luciano Huck desencadearam uma reacção negativa, especialmente no Nordeste, politicamente importante, que mais beneficiou do programa.
Com o relatório da ONU a dar um impulso oportuno ao Presidente Lula, os beneficiários dos programas sociais não estão dispostos a aceitar qualquer argumento contra as políticas que elevaram o Brasil para a zona de desenvolvimento humano muito elevado.
Publicado – 03 de junho de 2026 20h59 IST










